A entrevista na íntegra, em Inglês, você lê aqui
Os últimos quatro discos do Incubus tiveram hits no Top 5 da Billboard americana, mas aos trinta e três anos, o vocalista Brandon Boyd diz “o meu melhor trabalho ainda está por vir”. Este ano, Incubus lançou Monuments and Melodies, a primeira compilação de mais de uma década de hits, que também inclui faixas não lançadas. Depois do lançamento, em 2006, do Light Grenades, a banda entrou em hiato enquanto Boyd e o guitarrista Mike Einziger voltaram aos estudos. SFCritic teve a chance de conversar com Boyd sobre o que está por vir, amor, espiritualidade, e se rebelar contra tudo, e contra nada.
Como está sua saúde? Você estava doente no Outside Lands.
Obrigado por perguntar. Eu não fico doente com frequência, mas quando eu fico, parece que nunca fiquei doente antes. Este foi sinceramente um dos shows mais humilhantes de toda minha carreira. Eu sabia no camarim que eu não tinha voz, literalmente, pra cantar.
Você disse ao público que te foi aconselhado beber vinho pra cortar a doença, você recomendaria isso?
Não, não sempre. Eu não era um bom exemplo aquela tarde (risos). Minha recomendação é não ficar doente, especialmente com o sistema de saúde dos Estados Unidos.
Você assistiu Sicko (S.O.S. Saúde – 2007 – Michael Moore) recentemente? É por isso que está martelando nesta questão?
Não, é uma situação que me incomoda continuamente, e eu não sou tão entendido quando o assunto é política de tudo, mas eu sei que num ponto de vista muito humano que parece muito esquisito que as pessoas tenham que pagar para se manter saudáveis. Parece muito ruim para mim num nível espiritual.
Você pode falar um pouco da sua espiritualidade?
Eu nunca me considerei uma pessoa religiosa de maneira alguma. Eu tenho opiniões e pensamentos definidos das coisas. Eu me considero positivamente agnóstico, se é que você acredita nisso.
O que te levou a retomar os estudos?
Eu sentia que algo estava incompleto. Nós começamos essa banda quando tínhamos quinze anos, tocando em festas do colegial. Quando terminamos o ensino médio, não sabíamos se assinaríamos um contrato com gravadora, mas nós íamos tentar. Eu realmente gostava de estar na escola e estudar as coisas que eu queria estudar, em oposição àquele ‘dever social’ que é o ensino médio. Eu estava estudando arte, filosofia, e todas essas coisas legais, mas aí fomos contratados.
Quando essa oportunidade de dar um tempo da estrada apareceu ano passado, pareceu como o próximo passo lógico. Sério, quando percebi, eu estava tendo este sonho recorrente: Eu esou de volta à escola, mas não sei onde são minhas aulas, esqueci onde é meu armário e esqueci minhas calças. Eu achei que tinha algo alí – e eu precisava investigar.
Como foi estar na escola novamente e a atenção que você recebeu?
Foi muito suave, na verdade. Minhas aulas eram aulas de arte exclusivamente, e se alguém se importava, não demonstrou, o que é maravilhoso.
Você já trabalhou como fotógrafo, pintor, compositor, cantor; há ainda algo mais que você está considerando?
Me aprofuntar na música. Eu sou fascinado com a música enquanto forma de arte porque eu não a entendo completamente. Eu não leio música. Eu componho música, mas eu não sei compôr em linguagem musical. É algo que tem acontecido intuitivamente o tempo todo, quase como seguir um cheiro maravilhoso por um campo até a torta de maçã na janela, é assim que tem sido até agora. Eu sinto que ainda estou para esbarrar no meu melhor trabalho.
Retrocendo em sua carreira, você disse que ainda não atingiu seu ponto mais alto; onde você acha que está agora?
Pessoalmente, como artista eu sinto que estou numa encruzilhada agora, um ponto pivô. Provavelmente tem muito a ver com a minha idade. Eu estou com trinta e três anos. Eu tenho feito isso desde os quinze. Não sei dizer por que, mas tem uma sensação avassaladora no meu coração que o meu melhor trabalho está ainda por vir, porque eu não leio música. Como eu disse antes, continua sendo algo mágico, quase místico quando acontece. Eu não sei como os outros compõem, mas eu tenho vários jeitos. Os melhores simplesmente aparecem. Eles literalmente aparecem do nada. Então se as sensações que eu tenho combinadas com o jeito que eu componho são alguma indicação, então o meu melhor trabalho está próximo. Eu estou cheio de sensações maravilhosas recentemente.
É por que você tem uma história de amor positiva agora?
É. Pela primeira vez na minha vida existe uma pessoa que apoia imensamente o que eu faço, como eu faço e terrivelmente, terrivelmente compreensiva no que se diz ao processo. Muitas vezes no meu passado, o processo de composição pode me fazer parecer desinteressado. Eu acho que isso acontece com muitos compositores. Não é minha intenção mesmo.
Na maioria das vezes tem algo martelando na minha cabeça. Uma música em reparos ou uma melodia que não consigo tirar da mente. Então parece que estou ou desligado, ou não me importando ou não prestando atenção, quando não é nada disso – é o oposto. Muito disso acontece em lugares muito calmos, não-conversativos, quase em isolamento, o que dificulta o relacionamento, tenho certeza.
E esse ‘desligamento’ que você descreveu já acabou com algum relacionamento seu?
Ai Deus, sim. (risos) Provavelmente mais do que eu gostaria de admitir. Tem isso e tem também a distância que estar em turnê constantemente cria. Combinando esse aparente desinteresse com distância física não é a melhor equação para um bom relacionamento nem de longe.
Não é uma vida tão fácil quanto todos descrevem, eu sei.
Eu só estou explicando o lado menos glamuroso dela. O resto são arco-iris e raios de sol.
E unicórnios.
Exatamente.
Eu quero te levar em outra direção agora. Eu li uma entrevista que você deu à Sirona Knight e Michael Starwyn, que eu acredito ser do começo da sua carreira, na época do S.C.I.E.N.C.E. e do Fungus Amongous. Nessa entrevista, você fala de como entrou na música para se rebelar contra o sistema. Como um dos grupos-troféus da indústria da música hoje, você acha que ainda está se rebelando ou quer se rebelar?
Nosso desejo não era muito consicente. Eu não acho que sabíamos que queríamos nos rebelar contra o sistema, mas de certa forma sabiamos sim. Eu simplesmente soube desde muito cedo que eu não nasci para seguir o fluxo no que diz respeito à pressões e expectativas da sociedade. Eu sabia que tinha meu próprio plano. Neste sentido, eu já estava me rebelando contra o sistema.
Eu me encolhi com essa questão agora porque pra citar rebeldia contra o sistema virou algo tão comum, quase blasé. Então agora, se alguém quiser realmente ser um inconformista, ele tem que seguir o fluxo. Quando há tantos rebeldes no mundo, pra se rebelar você tem que ser aquele que veste o terno e a gravata. O que era contra-cultura agora é parte do mainstream, e se comoditizou tanto que por vezes é desanimador. Quando todo mundo parece roqueiro, quem é o rock star? Você pode comprar roupas de rock no shopping – não é muito rock mais.
Estamos agora num ponto onde o rock and roll enquanto ato de rebeldia está lutando pra se redefinir.
“Megalomaniac” foi direcionada à George Bush?
Originalmente, não – não era direcionada à George Bush. Haviam algumas figuras públicas em minha mente quando escrevi a letra dessa música. Pareceu direcionada ao Bush proque Floria Sigismondi fez o clip conosco. Suas imagens e mentalidade eram muito direcionados ao regime Bush. Nós estávamos de total acordo com ela. Eu senti que a letra dessa música era adaptável o suficiente que quase se tornou aquilo (sobre o regime Bush), que eu acho muito legal, quando uma música pode ver luzes diferentes e se mover.
É assim que arte vive. Com boa arte, ela continua se movendo e se mantendo viva, e vive renascimento quando é adaptável assim. Nós temos algumas músicas que são bem específicas sobre coisas específicas, e n visão de algumas pessoas, ‘Megalomaniac’ é uma delas. Na minha cabeça, ela pode se modificar. Então de certas maneiras, sim, é sobre o regime Bush, mas de outras quando eu a compus, isso não estava na minha mente.